quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ilusão

Acabaram suas ilusões. Ela havia cultivado elas por tanto tempo que já se confundia com sua realidade. Vasta floresta, regada, amada e desordenada como todo bioma natural. Suas fantasias criaram raízes profundas em sua mente e coração e a cada sorriso, a cada toque, novas flores, frutas e sementes surgiam pra completar o cenário desta paisagem holográfica. Mas como toda mentira cai por terra, ela se sentia esbofeteada com a verdade de forma dura e repentina, e a terra firme em que apoiava seus pés foi brutalmente substituída por nuvens inconscientes, fumaça a se espalhar na imensidão do céu. Sumiram as plantas e animais, sumiu o sol. O sol, logo ele, que jamais se apagaria, que nunca a abandonaria, que a aquecia e enchia sua vida de felicidade. Deu lugar a um nada tão absoluto, uma dor tão penetrante e insuportável. Procurou elementos que lhe permitissem salvar, se não as árvores, as sementes, se não o sol, uma estrela. Nada ficou, nada vai ser como antes.  A terra fértil, preta, onde ela se jogava sem medo, é uma lembrança ferina, uma armadilha mortal onde nunca mais pisaria, nunca mais pisaria. Seus olhos jamais verão e suas não mais cultivarão novamente o seu jardim de felicidade. Sua cegueira era renovada por mil tsunamis que brotam e suas mãos agiam como tornados furiosos, destruindo tudo que lhe era tão caro e precioso, tudo que ela tanto almejava salvar.  Tudo deu lugar à incerteza, ao medo e a velha dor, corrosiva, ácida, que nervosamente insiste em tomar posse deste pago de sofrimento e desolação. Saudades da ilusão, do seu mundo perfeito onde nunca mais pisaria e que nunca mais veria. A ignorância é a maior benção contra o sofrimento, contra a indignação, pensava ela, sempre preferiu a ignorância, mas uma coisa é fato. Depois de aberta a Caixa de Pandora, é impossível fingir que nada aconteceu e o que se espera dela é uma atitude, a ideia xeque, que abrirá terras e passagens para outros mundos ainda desconhecidos. Enquanto secava mais uma lágrima em seu rosto, torcia para que seus pés calejados de tristeza a levassem para terras mais felizes. 

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